Veias abertas

“Outro dia, li uma reportagem onde o prefeito de uma das cidades ameaçadas pelas barragens de mineração, disse que sua cidade morreu. Compartilhei a reportagem e fiz uma crítica às autoridades locais que, enquanto estão recebendo as benesses dos royalties gerados pela exploração sem critérios, tudo bem. Mas quando se veem diante da conta pra pagar, colocam a boca no mundo.

Um grande amigo meu, fez um contra ponto à minha crítica dizendo que a responsabilidade é toda da empresa mineradora, mesmo porque, as autoridades não são especializadas em mineração. Respeitei seus argumentos, baseado na máxima que diz: “Pontos de vista, existem três: o meu, o seu e o certo”.

No entanto, retruquei seu comentário dizendo que, ninguém precisa ser especialista em abismos, pra saber que não se deve atirar em um.

Obviamente que não estou criticando o prefeito que decretou a morte de sua cidade, mas todos aqueles que lutaram por suas eleições e acabaram deitando sobre a comodidade de administrar suas cidades com os valores recebidos das mineradoras e sem se preocuparem com os riscos que essas explorações, poderiam acarretar no futuro.

Essa dependência financeira é tão explicita, que poucos meses após a tragédia de Mariana, houve a primeira manifestação para que a mineradora recomeçasse suas atividades.

E as pessoas desalojadas de suas comunidades? E as mortes de inocentes? E as devidas indenizações que, ao que me consta, até a presente data não foram devidamente quitadas? E a revitalização do rio? E…?

Antes mesmo das águas do Rio Doce, começarem tomar sua cor original, vem outra tragédia de maiores proporções, a de Brumadinho. E lá se vão mais de três centenas de vidas de trabalhadores, lá se vai mais um rio transportando em seu leito a lama assassina, além da paz e a tranquilidade de uma cidade, que vivia o sonho dourado de sua primeira universidade.

Concordo que grande culpa recai sobre a mineradora, no entanto, recai também sobre nossas autoridades federais, estaduais e municipais que, em momento algum se preocuparam com medidas preventivas e sim, com o lucro fácil que a exploração do minério proporciona.

Essas não foram as únicas tragédias que atingiram o estado e com toda certeza, não serão as últimas. Outras de menores proporções já foram registradas, como a de Cataguases, a de Itabirito, a de Nova Lima e outras.

Hoje, temos em Minas Gerais, aproximadamente, 400 barragens de rejeitos e pelo menos 50 delas, sem qualquer garantia de estabilidade. Outro agravante é o alto número de municípios dependentes da mineração, dos 853 municípios do estado, pelo menos 480 deles dependem dos royalties do minério pra sobreviver. Esses números nos dão a certeza que estamos longe de uma solução definitiva para o problema.

Outro segmento que se vê diante de eminente ameaça é o de parques de preservação ambiental como o do Rola Moça, Serra da Piedade, Mangabeiras, Serra do Gandarela, Serra do Cipó e outros, todos situados sobre imensas jazidas de minério de ferro.

Enquanto nossas autoridades não tomarem consciência da necessidade de medidas de preservação, criarem alternativas de rendas para que nossas cidades não dependam só dos royalties e empresários não abrirem mão dessa ganância despudorada que só visa o lucro fácil e imediato, vamos continuar assistindo a agonia de tribos inteiras como a dos Krenaks, no Rio Doce e dos Pataxós Hã-Hã-Hãe, no Rio Paraopeba, além de ribeirinhos e pescadores que têm como única alternativa de renda a pesca nesses dois rios, de onde sempre tiraram o sustento de suas famílias.

Obs: o titulo desse texto foi retirado da obra de Eduardo Hughes Galeano (1940 – 2105)

“Las venas abiertas de América Latina”

Tony Marques

Maio/2019″

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